Após a partida de quem ocupou um grande e especial espaço em nossas vidas fica um vazio com a forma de quem nele esteve. Passamos a conviver com uma ausência, perturbadoramente, presente. Nossa mente se pega, por vezes, conversando com alguém já ido como se ele fosse nos responder e interagir conosco. Passou a ser como aquele amigo invisível da infância. Com o tempo forma-se uma cicatriz dentro de nosso coração com o contorno de uma figura e no seu interior o que chamo de zona cinzenta, porque para mim cinza é a ausência de vida e de alegria. Cinza é monotônia! É interessante relacionar-se com ausências e seus fantasmas sem nostalgia, mas, um vazio pleno de sentimentos que o tempo vai anestesiando e colocando no modo de adormecimento. Ausências também são seres autônomos dentro de nós, com os quais aprendemos a conviver, pacificamente, ao longo da jornada. Analisando minha trajetória , observo que minha coleção de ausências está aumentando e daqui a pouco s...
Desconfio que estou com certa resistência em escrever sobre o resto desta história. Vou procurar ser o mais sucinta possível. Eu já tinha feito minha primeira pós-graduação, embora ainda não tivesse me inserido na minha área de formação. Ele estava atolado na frustração de ter passado em uma Universidade bem conceituada próxima à sua casa, mas, que além de cara, era em período integral. Ele precisava ajudar financeiramente a família. O pai dele estava desempregado, a mãe tinha conseguido um emprego como cuidadora de uma idosa e só folgava um dia na semana. O irmão do meio também trabalhava , adiou a faculdade, que conseguiu fazer mais tarde, e a irmã caçula era adolescente. No aniversário dele fiz uma surpresa com a ajuda de sua mãe , que gostou de mim. Foi uma caixinha linda, que tinha uma mola com um palhacinho segurando uma faixa de Feliz Aniversário. Ao abrí-la o palhaço surgia e um monte de pequenos corações saltavam. À noite, saímos para j...
Eu entrava cedo no trabalho e chegava em casa por volta das 15 horas. Quando meu pai me disse que havia um rapaz na sala querendo falar sobre livros, fui ver do que se tratava. Não entendemos como ele entrou no prédio de três andares em que cada morador tinha a chave da porta de entrada, que permanecia sempre fechada. Naquele dia e momento estava aberta. O jovem magro, de baixa estatura , roupas escuras e antiquadas sentado na poltrona disse estar captando sócios para o Círculo do Livro, do qual eu havia saído por insatisfação. Ouviu minhas avaliações negativas e não insistiu na tentativa de me convencer. Manteve a calma, falou em tom pausado. Conversamos sobre amenidades, tomou café , disse que ainda iria para o colégio, pois cursava o último ano do Ensino Médio e trabalhava para ajudar nas despesas de sua casa. Eu já havia terminado meu curso universitário e era seis anos mais velha que ele. Me despertou o sentimento de piedade. Parecia infeliz. Considero este um dos piores sent...
Comentários
Postar um comentário